A depressão no esporte

Atualizado: 8 de set. de 2020

Vem crescendo a cada dia e, se não tratada corretamente com auxílio de psicólogo, pode levar atletas a interromper sua carreira muito cedo aliado a traumas e sofrimentos.

Conhecida como a patologia do século 21, a depressão está muito mais presente no esporte do que as pessoas imaginam: um estudo feito em 2015 pela FIFPro (Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol) apontou que 38% dos atletas tinham sintomas de depressão ou ansiedade. Foram entrevistados mais de 600 jogadores na pesquisa.


A porcentagem de casos em atletas é bem maior do que a média global. No Brasil, um dos países com mais casos de depressão, 6% da população sofrem com a doença. A estimativa da Organização Mundial da Saúde é que, até 2020, ela seja a mais incapacitante do mundo.


A professora Katia Rúbio, coordenadora do Observatório de Psicologia do Esporte da Escola de Educação Física e Esporte da USP, comenta que há “uma grande negligência quando se fala em saúde mental no esporte, principalmente no Brasil”, e isso, por si só, já justifica os números no esporte ser tão mais elevados.


Quando algo tão crucial como a saúde mental dos atletas não têm a devida atenção, basta uma sequência ruim de resultados e tudo pode ir por água abaixo, com perda de patrocínio, de rendimento ou mesmo do contrato competitivo. Como explica a professora, “a obrigação do atleta não é apenas treinar e fazer a sua função, mas ele se vê obrigado a ganhar a qualquer preço. A derrota deixa de ser algo que faz parte da vida do atleta e do esporte para virar o que tem que ser evitado a qualquer custo”.


No Brasil, são poucos os clubes que têm esse cuidado com o estado mental de seus atletas. Em 2017, apenas seis dos 20 clubes do Brasileirão possuíam um psicólogo dedicado exclusivamente ao time profissional. Isso se deve “porque ainda prevalece entre os clubes brasileiros a representação social de que a psicologia é um trabalho para loucos, e então não seria algo necessário para os atletas”, afirma Katia.


A professora Katia Rúbio também destaca a crescente importância que grandes potências esportivas, como os Estados Unidos, vêm dando para o psicológico de seus atletas. “Seria muito importante que esse tema fosse tratado com mais carinho e responsabilidade dentro do esporte. A gente tem visto isso principalmente nos Estados Unidos, como isso tem sido cada vez mais cuidado e que, no Brasil, ainda não recebe a mesma atenção, o que mostra o quanto o esporte aqui ainda é amador”.

Apesar de fenômeno global, a questão da depressão entre os atletas em território brasileiro projeta-se a níveis muito mais preocupantes, onde pressão por eficiência não caminham juntas à infraestrutura e auxílio à saúde dos esportistas de alto rendimento.

Atualmente a depressão é considerada como uma das doenças mais devastadoras que afligem o ser humano. O que poucas pessoas sabem é que aquela sensação de tristeza profunda, dores no corpo, irritabilidade, estão atingindo também atletas e fazem com que a depressão no esporte cresça cada vez mais.


A Organização Mundial de Saúde no seu relatório em 2018 revelou que há 332 milhões de pessoas com depressão no mundo, ou seja, 4,4% da população global. Somente nos últimos 10 anos, o crescimento de casos foi de 18,4%.


No Brasil, 5,8% da população brasileira sofre com algum tipo de transtorno depressivo. O Brasil é também o país da América Latina com maior taxa de ansiedade, cerca de 9,3% da população, que se estende para quadros de síndrome do pânico, transtornos obsessivos-compulsivos, fobias e estresses pós-traumáticos.


São dados alarmantes, de pessoas que precisam de atendimento de psicólogo para que a situação não leve para um caminho ainda pior.

Vamos entender por que esse tema não é discutido adequadamente no esporte!


Tanto os atletas quanto os treinadores são fortes candidatos a desenvolver depressão. O gatilho pode ser uma reação emocional, psicológica e física em resposta a pressão e ao estresse excessivos, ao treinamento físico intenso, a exaustão física e a insatisfação pela monotonia dos treinamentos e/ou ao repouso inadequado. Para VIEIRA (2008) apud. WEINBERG & GOULD (1995), estas reações são acompanhadas por sentimentos de baixa autoestima, fracasso em atingir as metas traçadas que levam a perda de produtividade e diminuição do nível de performance.


O que causa a depressão no esporte

No caso dos atletas de alto rendimento, o maior causador da depressão é a busca por resultados e a frustração de não alcançá-los tão rapidamente quanto imaginava.

Além disso, muitos atletas não estão preparados para a pressão que passarão a sentir dos patrocinadores, dirigentes de clubes, da torcida, técnicos, na rua, e de si próprios.

O resultado são quadros de depressão que, se não tratados corretamente aos primeiros sinais, poderão desencadear outros problemas de ordem psicológica, e até mesmo o envolvimento com drogas lícitas e ilícitas, na busca para aliviar a pressão sentida. A partir deste momento os atletas podem entrar em um caminho muito difícil.


“A percepção não é influenciada apenas pelo que pensamos, mas também pelo fator afetivo, por aquilo que se espera de determinada situação.” “Um atleta em um estado deprimido ou desesperançado, diante de uma situação frustrante irá sentir-se mais triste e apresentará comportamentos de desistência ou fuga.” Muitos comportamentos sofrem influência de fatores psicológicos os quais afetam o desempenho motor do atleta, e este fator afeta completamente o seu desempenho no contexto competitivo de alto rendimento (VIEIRA et. al, 2008 p.2 ).


Falta de estrutura psicossocial

Na maioria dos casos, os atletas de alto rendimento foram crianças focadas no esporte e cobradas por resultados, que os fazem perder fases importantes da infância e adolescência, e isso não é necessariamente um problema, mas se não existir uma estrutura psicossocial familiar que atue como força extra aos jovens, eles se tornarão adultos mais carentes e frágeis neste universo.

​A depressão, também, cresceu de forma alarmante dentro do meio esportivo e alguns clubes ainda não enxergam a depressão como um mal a ser tratado. O resultado é a falta de uma estrutura para atender adequadamente os atletas e de profissionais como psicólogos para trabalhar com os atletas.

Os clubes banalizam as emoções dos atletas, trabalham dentro de achismos, e trazem palestrantes e ou coaches despreparados para tratar de assuntos como motivação, ansiedade, tristeza e outros assuntos voltados as emoções dos atletas.

Atletas que relataram ter depressão e se superarão na Olimpíada de 2016

Michael Phelps - 5 medalhas de ouro e 1 prata na Rio 2016

Diego Hypolito - uma medalha de prata na Rio 2016

Allison Schmitt - 1 medalha de ouro e 1 prata na Rio 2016

Rafaela Silva - uma medalha de ouro na Rio 2016

English Gardner - uma medalha de ouro na Rio 2016

Poliana Okimoto - uma medalha de bronze na Rio 2016

Anthony Erwin - duas medalhas de ouro na Rio 2016

(https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/09/19/eles-tiveram-depressao-e-medalharam-como-atletas-lidaram-com-a-doenca.htm)


A importância do tratamento

SAMULSKI (2009) declara que o papel do psicólogo não tem efeito imediato, e, que com o auxílio dos técnicos é possível fazer com que o sucesso do atleta seja alcançado, diminuindo o nível de depressão.

“O próprio atleta com depressão pode recusar-se a entrar em contato com seus sentimentos e negar o problema, pois cada dia de treinamento de um atleta exige uma superação de limite e, quando isso não ocorre, o desempenho geralmente é abaixo do esperado, ou passam a encarar a depressão como uma fraqueza.” (BRANDÃO et. al. 201 1, p. 03)

Assim como ocorre com as demais pessoas, o tratamento contra a depressão precisa ser constante e frequente.

Na área esportiva, é recomendado que clubes invistam nem profissionais da saúde mental para trabalhar constantemente com os jovens das categorias de base. Isso irá ajudá-los a fortalecer suas habilidades emocionais, fortalecendo o psicológico, e ensiná-los a suportar melhor às pressões e frustrações.

Por isso, é fundamental que um psicólogo integre a equipe do departamento médico de qualquer clube, fazendo um trabalho constante e profissional com os jovens atletas.

Infelizmente ainda há uma grande banalização em torno da depressão e dos males que ela pode causar ao corpo e a mente do ser humano. No esporte, essa discriminação é ainda maior.

Assim, é fundamental que os clubes mudem seu pensamento em torno desta terrível doença e contribuam para a formação completa de seus atletas. Com eles saudáveis psicologicamente, seu rendimento esportivo será muito melhor.


“O estado de humor de um atleta altera -se dependendo das experiências passadas, de sua percepção da situação e da forma como irá lidar com as expectativas e pressões exercidas pelo ambiente, tais como: o técnico, a torcida e os familiares. Nestas situações, o esportista de alto rendimento está exposto a um estresse constante, pois não há um controle exato da situação. Devendo saber liar tanto com as vitórias (sucesso) quanto com as derrotas (frustrações), o que leva a um maior contato com suas emoções e, desta forma, exigindo um maior controle de seus afetos e estados de humor.” (VIEIRA. et. al. 2008, p. 02)


BARBANTI (2011 p. 5) diz que as causas mais comuns da depressão nos atletas são “a

personalidade do atleta, ansiedade, baixa auto- estima, fracasso, lesão física, mudanças de comportamento, auto-cobrança, problemas afetivos, perda de prestígio ou da posição de titular e baixo rendimento.” Para a autora, é possível identificar a depressão no atleta “quando certos sintomas aparecem e permanecem por mais de duas semanas, tais como sentimento de falta de interesse e prazer nas atividades, pensamento frequente na morte, angústia/ansiedade, abuso de álcool e/ou drogas, insônia ou excesso de sono e perda de apetite.”


Quais os principais benefícios psicológicos da atividade física no tratamento de transtornos emocionais e mentais.

Entre as condições para manter a saúde física e mental está a necessidade da prática de atividades físicas.

Os benefícios psicológicos da atividade física vão muito além da produção de hormônios que garantem a felicidade e bem-estar. As atividades físicas e esportivas também afastam doenças físicas, psicossomáticas e psicológicas, com isso promovem a longevidade do indivíduo.

A atividade física ajuda na produção de hormônios tais como serotonina, dopamina e endorfina. Eles são responsáveis pela sensação de bem-estar e felicidade e, também, favorecem o metabolismo, a qualidade de pensamentos, os neurotransmissores e muito mais.


Quais os benefícios psicológicos da atividade física para a saúde mental?

Samulski (2009) ainda deixa claro o quão importante é o exercício para as pessoas que sofrem com o transtorno, fazendo com que elas liberem neurotransmissores importantes para a saída da situação em que se encontram.


1) Melhora a autoestima

Um dos principais benefícios psicológicos da atividade física é melhorar a autoestima.

Pacientes com depressão, transtorno borderline, ansiedade, transtornos de imagem podem ter o tratamento favorecido com a prática de atividades físicas.

2) Reduz o estresse

A redução do estresse é também um dos principais benefícios psicológicos da atividade física.

A atenção requerida e desviada para o controle do corpo, faz que com preocupações muitas vezes provocadas por ansiedade ou transtornos sociais sejam reduzidas a medida que se realiza práticas físicas.

3) Protege o sistema cognitivo, prevenindo doenças degenerativas

Ao estimular a oxigenação do cérebro, os neurotransmissores são favorecidos. Também estimula a memória e afasta pensamentos ruins. Com isso o organismo reduz a produção de cortisol que é descarregado no sangue.

Também proporciona a melhora o sistema cognitivo, reduz o envelhecimento precoce das células e promove a longevidade.

4) Reforça o sistema imunológico, severamente prejudicado por doenças mentais

O sistema imunológico costuma ser severamente prejudicado por transtornos psicológicos, facilitando doenças ocasionais, como resfriados, dores de cabeça e problemas do trato intestinal.

Ao praticar exercícios, os hormônios da felicidade — serotonina, endorfina e dopamina — se encarregam de reforçar nossos sistemas de defesa. Esses hormônios são produzidos em maiores quantidades pelo corpo graças as atividades físicas.

5) Aumenta a disposição, garantindo mais produtividade

O cansaço e a falta de motivação afetam pessoas que sofrem com diversos transtornos psicológicos. Obviamente a prática esportiva fará com que o corpo passe a receber hormônios que garantem nossa disposição e bem-estar.

Também favorece a qualidade do sono, e após uma noite bem dormida a chance de ter um dia com mais qualidade é muito maior.

Os benefícios psicológicos da atividade física e a produção de substâncias que dão sensação de bem-estar.

A prática de atividades físicas ajuda na produção dos hormônios da felicidade. Vamos entender um pouco como funciona cada um?

1) Dopamina

A dopamina é um neurotransmissor responsável por uma série de funções no cérebro, mas principalmente em funções relacionadas com o controle de movimento, memória e prazer.

Recomenda-se o consumo de alimentos que favoreçam sua produção tais como abacate, amêndoas, feijão e nozes, assim como a prática de esportes.

2) Serotonina

A serotonina é um neurotransmissor responsável pela qualidade do sono, bom humor, apetite, ritmo cardíaco, funções intelectuais e sensibilidade a dor.

Manter a produção de serotonina é fundamental para diversas funções cerebrais que garantem nossa qualidade de vida e principalmente nossa disposição.

Alimentos como o chocolate preto, carnes magras, vinho tinto e leite podem contribuir com a produção natural de serotonina, assim como a prática de atividades físicas

3) Endorfina

A endorfina é um neuro-hormônio produzido pelo corpo, utilizada pelos neurônios na comunicação do sistema nervoso. Ela é produzida pela glândula hipófise. É um hormônio do bem, presente na forma natural do cérebro.

A endorfina é um importante analgésico, ajudando a combater estados de ansiedade, depressão e mantendo o apetite. Ser feliz, ter relações sexuais e comer alimentos que dão prazer, assim como a prática esportiva favorecem a produção de endorfina.

O fato é que todos os médicos costumam recomendar aos seus pacientes realização de atividades físicas. O psicólogo contará com esse recurso adicional para tratar diversos transtornos psicológicos, desde a depressão até casos relacionados com a dependência química.

Caso você perceba que pode estar sofrendo com transtornos psicológicos, procure apoio psicológico e busque uma atividade física para ter mais qualidade de vida em sua vida.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Maria Regina Ferreira et. al. Estados emocionais de técnicos brasileiros de alto rendimento. Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v.10 n. 3 p. julho 2002. Disponível em <https://portalrevistas.ucb.br/index.php/RBCM/article/view/459>.

BARBANTI, Eliane Jany. A depressão no atleta. Educação Física em Revista ISSN: 1983 - 6643 Vol.5 Nº1 jan/fev/mar/abr – 2011. Disponível em:

<https://portalrevistas.ucb.br/index.php/efr/article/view/2019/1388>..

CHEIK, Carla Nadia. et al. Efeitos do exercício físico e da atividade física na depressão e ansiedade em indivíduos idosos. R. bras. Ci. e Mov. Brasília v. 11 n. 3 p. 45-52 jul./set. 2003. Disponível em <https://portalrevistas.ucb.br/index.php/RBCM/article/viewFile/509/534>.

MELLO, Marco Túlio de. et al. O exercício físico e os aspectos psicobiológicos. Rev Bras Med Esporte Vol. 11, Nº 3 – Mai/Jun, 2005. Disponível em:

<http://www.scielo.br/pdf/rbme/v11n3/a10v11n3>.

BECKER JUNIOR, B. Manual de Psicologia do Esporte & amp; Exercício. Porto Alegre: Nova Prova, 2000.

PIRES, Ludmila da Silva. O que é Psicologia do Esporte e o que um psicólogo esportivo faz? Belo Horizonte: Psicologia Acessível, 2017.

SAMULSKI, Dietmar. Psicologia do Esporte: conceitos e novas perspectivas. São Paulo: Manole, 2009.

TENORIO, Goretti. Depressão: sintomas, diagnóstico, prevenção e tratamento. Saúde Abril, 2017. Disponível em: <https://saude.abril.com.br/medicina/depressao-sintomas-diagnostico-prevencao-e-tratamento/>.

PORTO, José Alberto Del. Conceito e diagnóstico. São Paulo: Rev. Bras.

Psiquiatr. vol.21s.1, 1999. Disponível em:

<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44461999000500003>.

Nações Unidas do Brasil. OMS registra aumento de casos de depressão em todo o mundo; no Brasil são 11,5 milhões de pessoas. ONU, 2017. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/oms-registra-aumento-de-casos-de-depressao-em-todo-o-mundo-no-brasil-sao-115-milhoes-de-pessoas/>.





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