Neurociência – a atuação da liderança dos técnicos no esporte.

Atualizado: 21 de jun. de 2020

O técnico atuava, no passado, dando todos os direcionamentos, esperava-se que ele tivesse todas as repostas. Hoje o que se espera de um técnico é que ele desenvolva os atletas e para que o técnico possa desenvolver os atletas, ele precisa entender o cérebro e isto é fundamental para que o trabalho seja efetivo.

Para entender melhor, o cérebro funciona através de um princípio organizador, que basicamente trabalha na percepção de ameaças e recompensas, é como se a cada 5 segundos o cérebro observasse todo o ambiente e as relações para identificar se está em um momento de ameaça ou recompensa.

Hoje em dia não temos ameaças que coloquem nossa vida em risco, como sair para caçar e encontrar a frente um leão ou outro animal perigoso; hoje tudo pode ser ameaça, e percebemos isto através das ameaças sociais. As ameaças sociais são aquelas que afetam a sua autoestima, status e sua segurança.

As dores físicas e sociais não se diferenciam quando é observada na região cerebral que é afetada, pois a região ativada é a mesma. A circuitaria é a mesma, e a dor social pode ser um feedback negativo na frente de outras pessoas, retirar do jogo no momento do erro, ser corrigido indevidamente na frente dos outros.

O atleta em quadra, durante um jogo, está em constante estado de ameaça e um feedback dado na hora errada, pode afetar o rendimento do atleta, fazendo que com ele fique menos criativo, menos colaborativo, a capacidade cognitiva diminui impedindo que o atleta consiga ler adequadamente o ambiente.

Precisamos agir de modo que que o cérebro trabalhe mais no estado de recompensa do que ameaça, pois, a atleta já convive com as ameaças dos adversários, da derrota, da avaliação do técnico, dos colegas, da torcida, a pressão que faz parte do dia a dia do atleta.

E para migrar do estado de ameaça para o estado de recompensa o técnico pode trabalhar através de feedback positivos ou com uma abordagem mais amigável, impedindo assim que o atleta se sinta ameaçado.

Porém tem que se perceber que feedback não pode ficar preso no erro, no que aconteceu, quem foi o culpado, por que cometeu o erro, por que não fez, etc.

O feedback deve focar no aprendizado, isso é utilizar uma linguagem da neurociência, o que aprendeu com o erro, o que pode fazer de diferente para não cometer mais o mesmo erro.

Contrariamente do que falam, feedback deve ter uma conotação de oportunidade de melhoria, não deve ser nunca olhada como negativo e nem ser dado com uma conotação negativa.

E para dar um feedback adequado precisamos saber que o cérebro gosta de previsibilidade, então a partir do momento que se senta para dar um feedback é necessário posicionar antecipadamente o que vai ser conversado, exemplo: perguntar se o atleta pode conversar sobre o que aconteceu no jogo, o que ele achou da partida ou até mesmo sobre os objetivos dele na carreira, definindo um foco para o feedback, trabalhando a certeza do que vai acontecer.

Ao perguntar se o atleta tem um tempo para conversar ou se pode conversar, inicia o trabalho da autonomia, desta forma você envolve o atleta pois está sendo respeitado o tempo dele, desarmando o estado de ameaça no qual o atleta pode se encontrar.

Para começar, antes de expor suas observações solicite as observações do atleta, como por exemplo: o que você acha que fez de bom na partida, quais foram os pontos fortes durante o jogo, o que ocorreu para termos tido sucesso ou derrota. Através de perguntas similares colocamos o atleta como autor do processo construtivo das soluções dele e da equipe.

Pensando no futuro, e esquecendo o passado, poderíamos trazer a atleta para saber o que ele poderia ter feito de diferente, o que faria para sermos uma equipe muito melhor.

Fazemos este envolvimento do atleta no processo construtivo de melhorias, percepções de erros e acertos, por que está provado neurocientificamente que quando o atleta tem a ideia, ou ajuda a construir a ideia ele se compromete mais e os resultados são melhores.

Ajudar o atleta a chegar no insight e ou a reflexão, proporciona ele a colocar em prática muito melhor e mais facilmente as ações e assimila-las, do que quando ele simplesmente repete ou recebe ordens.

Depois de todos estes processos na conversa antes do feedback (que já faz parte do constructo do próprio feedback), o técnico pode aproveitar e dar de forma adequada o feedback, assim como reconhecer as possibilidades apresentadas, dar espaço para que o atleta nos treinos coloque em pratica as ideias apresentadas junto com os outros atletas da equipe, claro que orquestrada pelo técnico, o qual se torna um parceiro e facilitador.

E como trabalhamos estas mudanças na condução durante os treinos, pré jogos e pós jogos? O cérebro não gosta de mudanças ele apresenta uma tendência de trabalhar no modo de economia de energia, o que ele pode economizar de energia e repetir os velhos hábitos ele vai fazer.

E como estimular a mentalidade de crescimento, que é quando se acredita que as coisas que são feitas por você de fato são excelentes e foi feita por você, seu talento e inteligência podem ser desenvolvidas ainda mais e a partir da crença na mentalidade de crescimento, o atleta consegue adaptar seus comportamentos e criar novos hábitos a partir de um contexto diferente sem se sentir ameaçado, por que toda mudança é uma ameaça para o cérebro.

O atleta pode utilizar o conhecimento da neurociência para entender melhor o ambiente em que ele está inserido, seja nos treinos, jogos, viagens, permanência no banco, etc., utilizando e conhecendo este conhecimento o atleta passa a se conhecer melhor e entender suas reações. Pois a partir do momento em que o atleta se sente ameaçado, como: por que perdeu a partida. Por que não conseguiu defender, fazer gol, por que ficou no banco, ele pode racionalizar e resignificar suas ações.

O córtex pré-frontal é a área que detêm a capacidade de racionalização, centro racional, ele é responsável pelas decisões, aprendizado, pelo que chamamos de controle de impulsos. Quando estamos nos sentindo ameaçados o córtex pré-frontal da espaço para o sistema límbico, ou sistema frontal límbico, que é responsável pelas emoções, e reagimos de forma muito emotiva, sem controle emocional e impensada e irritado, agindo de maneira agressiva.

E como sair do modo irracional para um modo de controle emocional (racional)? uma das formas é mudar o hábito, mesmo sendo difícil, mas é através do treino, treinar o cérebro, que podemos adotar um comportamento mais adequado. Antes de tomar qualquer ação pare, avalie a situação, não responda imediatamente, no esporte sempre temos tempo para analisar nossas ações.

Ao entender qual foi o gatilho que te fez agir de forma irracional, a partir do momento que você consegue dar nome a sua ação, a entender por que agiu assim, você consegue mudar o comportamento. Ao racionalizar suas ações você consegue melhorar suas repostas, ações e comportamentos.

E durante um jogo, como faço para racionalizar de forma tão rápida, evitando ser traído pelo meu emocional?

Através do treino, sua capacidade de conseguir treinar, perceber, resignificar, reconhecer o gatilho que te mobilizou. Um modelo a ser trabalhado é a previsibilidade, é se preparar durante os treinos, pensar suas ações, jogadas e possibilidades de ações que pode existir durante um jogo, conhecer seu adversário, repetir mentalmente as jogadas e suas variações, através deste treino o sistema pré-frontal se fortalece e diminui as ações do sistema límbico.

Treinamos o que pode dar de certo e errado durante uma partida, e nos erros construir uma possibilidade de acerto, de sucesso, planejar é uma forma de treinar continuamente o cérebro.

Mas se nada der certo, se não conseguir ter ações e comportamentos guiados pelo córtex pré-frontal, e o sistema límbico tomar de conta durante uma partida? Pode ser feita uma análise do “pós jogo”, que é uma análise que vai ajudar a entender por que suas ações foram irracionais, muito emotivas, impensadas, esta racionalização vai ajudar no aprendizado, através da pergunta: o que eu faria de diferente naquele momento? Desta forma fortalecemos o córtex pré-frontal e diminuímos a ação do límbico.

Modelo 4E – entende, experimente, explore e evolua

Ajuda a construir um comportamento de parceria? Se for com foco no aprendizado obteremos sucesso, porém se ficar preso no entender, se debruçando somente nas justificativas e perdendo energia não obteremos sucesso.

Se faz necessário entender, mas focar o futuro, nas possibilidades de melhorias, mais focado na solução do que na culpabilização.

Modelo 4E - Engajar, escutar, explicar e executar

A escuta é de suma importância para o técnico, para obter resultados excelentes e melhoria no rendimento da equipe e dos atletas.

Tanto técnicos quanto atletas devem desenvolver e aprender a utilizar a escuta ativa, dar espaço de fala para o outro, o mais importante é o espaço de escuta para que o espaço de fala exista.

Esta habilidade da escuta ativa, não é fácil, mas ela gera empatia para entender, perceber e não julgar suas ações e as ações do outro.

Como agir durante um jogo muito violento, que gera uma ameaça social muito alta? Treinar todos os passos acima, mas o técnico tem que ter um espaço para diálogo com os atletas nos treinos, para que nos jogos eles não entrem na vibração do jogo ou dos adversários. O adversário pode estar submetido ao sistema límbico, mas você técnico e atleta não, você precisa estar utilizando o córtex pré-frontal agindo racionalmente, desta forma a possibilidade de sair vitorioso é muito maior. Lembre-se que quem se sente ameaçado vai render menos, sua capacidade cognitiva é menor

O técnico precisa passar uma segurança emocional, na sua condução durante treinos e jogos. E vai conseguir atuar mais efetivamente ao reconhecer seus pontos de melhorias e seus pontos fortes. Se entendo ele cria um olhar mais empático e consegue perceber melhor o atleta em seu contexto.



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