Gênero, masculinidades e violência doméstica na atualidade - a atuação do psicólogo com HAVD.

Atualizado: 22 de jun. de 2020


GILSOM DE CASTRO MAIA

São Paulo

2018

RESUMO

Uma dinâmica familiar, que não propicia discriminar fatos de fantasias, contribui para o desenvolvimento de indivíduos que sofrem de constantes ameaças de desintegração do ego. Desenvolvendo-se um sistema de defesas altamente organizado e vigorosamente mantido, onde predominam a repressão, a negação e a recusa, com o objetivo de proteger o ego da ansiedade excessiva produzida pelo contato com uma experiência que não pode ser assimilada. Para proteger o ego da ansiedade excessiva, o indivíduo distorce seu contato com a realidade, obstruindo o acesso à consciência e eliminando os conteúdos mentais afetivos e ideativos. Estruturando-se um campo fértil para a proliferação da violência.

Lamanno-adamo (1999) entende a violência, como a expressão física tanto do amor como do ódio, desvinculados do interesse pela vida e pela verdade e, portanto, apresentando-se em estado selvagem e apavorante (apud Bion, 1992a).

Objetivo: Este trabalho tem como objetivo descrever e discutir as possibilidades de atuação e tipos de intervenção do psicólogo para redução do ciclo de violência no atendimento aos autores de violência doméstica que foram autuados pela Lei Maria da Penha.

Conclusão: Conclui-se que o trabalho do psicólogo com os homens autores de violência doméstica precisa ser mais desenvolvido e ampliado pelas políticas públicas tendo a atenção necessária tanto quanto os programas que são voltados às mulheres agredidas. Atualmente muitos programas no exterior e no Brasil tem ganhado visibilidade e prudência adequadas no olhar ao homem agressor para que seja ampliada essa questão tão importante e que é de cunho da saúde pública. Visando isso, foram sugeridas formas alternativas de atuação do psicólogo, que possam favorecer o alcance dos resultados pretendidos no combate, prevenção e redução ciclo da violência doméstica.

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho se insere no campo de discussões sobre violência doméstica, tendo como objeto de estudo os profissionais que atuam com homens autores de violência doméstica. Nosso objetivo é descrever e discutir as possibilidades de atuação e tipos de intervenção do psicólogo para redução do ciclo de violência no atendimento aos autores de violência doméstica que foram autuados pela Lei Maria da Penha.

Os resultados encontrados na revisão bibliográfica deixaram claro que o psicólogo que atua com homens autores de violência doméstica deve trabalhar com um olhar sócio educativo ao invés de punitivo para facilitar assim o vínculo, gerando neste homem uma ação reflexiva para que ele se responsabilize pela violência cometida.

Frente ao material que será apresentado, apareceram fatores que podem influenciar na manutenção da violência doméstica, assim como os problemas conjugais, crenças e valores familiares, isolamento social, dificuldades ao acesso as redes de apoio, hierarquias do poder ente o masculino e feminino.

Desta forma, foram sugeridas formas alternativas de atuação do psicólogo, que possam favorecer o alcance dos resultados pretendidos no combate, prevenção e redução do ciclo da violência doméstica, bem como alternativas de atendimento a esses homens, considerando eventos, condições de possibilidades, problematizando o lugar desse atendimento entre as estratégias transformadoras das práticas que dão sustentação à violência doméstica.

Saffioti (2004 apud LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008) quando analisa as intervenções voltadas à prevenção e atenção da violência, aponta que os envolvidos na relação violenta devem apresentar o desejo de mudança. Ao trabalhar somente com a vítima de violência doméstica, não ocorre uma mudança no processo de violência, pois a outra parte, o autor de violência, mantem seu comportamento, enfatizando-se assim o ciclo de violência, tornando a relação ainda mais violenta. É percebido que a vítima necessita de mais atenção, porém poucos percebem que o agressor também a necessita. Para que ocorra uma transformação na relação, as duas partes, vítima e autor de violência precisam de auxílio.

O homem é rotulado como doente quando comete qualquer tipo de violência contra a mulher, ligando a violência a existência de doenças e ao uso de drogas licitas e ilícitas, sendo que a maioria dos homens autores de violência doméstica não tem acesso a qualquer tipo de trabalho de intervenção socioeducativa, e mesmo participando, eles acabam desistindo e justificando que a vítima é a culpada ou isentando-se de qualquer responsabilidade sobre ato de violência cometida. Este comportamento prejudica e dificulta alcançar os resultados na diminuição do ciclo de violência contra a mulher. (SCHRAIBER at al, 2005 apud PELLEGRINI, 2009).

Segundo Oliveira e Romeu (2011) na década de 90, as pesquisas e trabalhos sobre violência e gênero apresentam um crescimento, porém, as pesquisas sobre homens autores de violência apresentam um interesse menor, por mais que desde os anos 80, internacionalmente já tenham se apresentado no meio acadêmico. Grossi et al (2006 apud OLIVEIRA; ROMEU, 2011), realiza um levantamento de pesquisas sobre gênero e violência, no âmbito nacional, e das 286 publicações apresentadas apenas 7% investigam homens ou masculinidades.

A ONU em 2006 apresentou um relatório[1] e enfatiza que o envolvimento dos homens no desenvolvimento de estratégias como um dos princípios norteadores de práticas promissoras na prevenção, da violência contra a mulher a implementação de ações e prevenções. (LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008).

ONG’s, organizações não governamentais[2], que realizam trabalhos com autores de violência doméstica e homens de todas as idades, mostram por meio das ações o impacto positivo ao fazer uso da abordagem de gênero e masculinidades, em ações voltadas à saúde. (LIMA; BUCHELLE, CLIMACO, 2008, p. 71).

As intervenções com homens autores de violência não são o melhor nem o único caminho para eliminar a violência contra as mulheres. Porém, a partir da leitura aqui empreendida, vislumbra-se que, quando integradas com outras ações dirigidas às mulheres, esse pode ser um importante meio para promover a equidade de gênero e diminuir a violência. (2008, p. 71,)

Segundo Arilha (2005 apud LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008) a participação, envolvimento e conscientização do homem e da sociedade no objetivo da diminuição e ou erradicação da violência contra a mulher é importante, porém que não deve ter um caráter meramente instrumental. No entanto, todos devem entender que a manutenção das “normas” do modelo hegemônico de masculinidade passa a ser prejudicial para a saúde e bem-estar de todos e todas.

A implementação da Lei Maria da Penha representa um estímulo e dá um caráter de urgência para a realização de novos estudos e pesquisas voltados a este novo olhar sobre o lugar dos homens no debate e nas ações sobre a violência contra a mulher. (LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008, p. 81)

Ainda segundo os autores (LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008) para entender a violência de gênero se faz necessário investigar as histórias de reconstrução do gênero masculino, as experiencias e discursos, desta forma existe uma possibilidade de intervenção com as vítimas e com os autores de violência doméstica.

Dentro de um contexto sócio histórico é possível compreender as diversas formas de violência, às vezes toleradas ou não, suas expressões sociais e subjetividades. (MINAYO, 2005, apud, LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008).

2. VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Infelizmente no Brasil, não há muitas pesquisas que visam os homens autores de violência doméstica o que impacta diretamente na visão desse homem como sujeito portador de direitos com necessidades de saúde e apoio. (MADUREIRA et al, 2014).

Ainda permanecem desconhecidas as causas que permeiam a violência de homens contra as mulheres. No entanto, destacam-se duas teorias etiológicas que influenciam a temática. Como aponta Lima, Buchelle e Clímaco (2008): “. A primeira defende a idéia da transmissão da violência de uma geração para a outra, enquanto a segunda coloca a questão de poder e dominação masculina sobre as mulheres no centro do debate.”. Embora haja muita pesquisa no campo da biogenética que busca enganchar a violência cometida pelos homens com predisposições genéticas, acredita-se que os recursos mais utilizados são aqueles que são reproduzidos e aprendidos mediante linguagens, símbolos e os laços que nos constituem.

Madureira et al (2014) destaca a grande importância de conhecer o homem que se encontra no contexto da violência de gênero, levando-se em consideração não apenas o discurso da vítima, mas também da parte que a praticou, tornando o homem como parte da relação do casal enfatizando assim a dinâmica relacional. Se houver investimentos em pesquisas voltadas aos homens autores de violência, podem haver contribuições nas estratégias e implementações de políticas para o enfrentamento em detrimento da visibilidade do perfil da agressão.

Conforme Nothaft, (2015, p. 5), “a ideia de que o motor da violência está na dominação de gênero (contida na expressão “violência contra a mulher”) reduz um problema por natureza complexo e dinâmico a um fenômeno estático e de causalidade única.” As experiências de violência dentro do contexto do relacionamento são diferenciadas pela intensidade, frequência e forma como se produzem, mas está muito além da leitura bidimensional que categoriza a mulher como vítima e o homem como agressor. É preciso desmistificar o paradigma que trata a mulher apenas como subjugada e o homem como violento. As relações precisam ser visualizadas como fora da conjuntura padronizada e dos papeis engessados.

De acordo com Madureira et al (2014), mesmo diante da agressividade vivenciada, grande parte das mulheres permanecem com o agressor. Exposto isso, enfatiza-se a importância de se abarcar os homens autores de violência em prol da atenção e prevenção.

Referente ao estudo sobre os papeis de homens e mulheres na relação trazem subsídios para compreensão de diferentes tipos de influência entre os casais, sendo o “tradicional patriarcal” o mais significativo para o entendimento da violência contra a mulher. (MONTEIRO, 2012)

Conforme explanado por Kaufman (1999, apud, Lima; Büchele; Clímaco, 2008), foi desenvolvida uma estrutura denominada “Sete P” da violência dos homens” que visa assimilar a natureza complexa da violência cometida pela população masculina. Abaixo destacamos três dos setes P’s,:

• Armadura psicológica da masculinidade: os aspectos que podem aparentar um contexto feminino são negados e rejeitados;

• Pressão psíquica: desde a infância, os homens crescem para não expressar emoções ou sentimentos de medo, carinho ou fragilidade. Em contrapartida, a raiva é uma emoção permitida;

• Experiências passadas: presenciar violência cometida por outros homens na infância, principalmente dos pais, pode configurar as situações como condutas a seguir na vida adulta.

· Privilégios;

· Poder patriarcal;

· Permissão;

· Paradoxo do poder masculino;

Sendo assim, evidencia-se a importância de se compreender a presença do homem no enredo da violência, levando-se em consideração sua subjetividade, não somente quando é derivada dos modelos de gênero da sociedade. (LIMA, BUCHELE; CLÍMACO, 2008).

Quando se trata de violência doméstica, isso significa que essa invasão é vivenciada, muitas vezes, com alguém que tem um lugar de referência para aquele que sofre a situação, o que faz com que no desenrolar desse processo se misturem sentimentos contraditórios de amor e ódio. (RIBEIRO, 2004, apud BEIRAS, 201, p. 5).

Por fim, para compreender-se a violência de gênero, é necessário incluir os processos de socialização masculina e a forma como são significativas na sociedade, visto que os homens “são educados para reprimir suas emoções, sendo a agressividade, incluindo a violência física, formas geralmente aceitas como marcas ou provas de masculinidade.”. (LIMA; BUCHELLE; CLÍMACO, 2008, p. 75).

2.1 GÊNERO E MASCULINIDADE

Formamos a nossa primeira identidade a partir de nossos corpos e sexo, definindo assim perante a sociedade se seremos dominadores ou dominados (homem e mulher). É uma relação de poder que é construída apenas levando-se em consideração as características biológicas. (MONTEIRO, 2012)

Os papeis são formados em função da identidade da família que transmitem ao sujeito desde o seu nascimento, conforme o sexo, os valores, crenças e regras de acordo com o meio em que ele está inserido, direcionando-o em sua forma de agir. (MONTEIRO, 2012).

Ainda segundo a mesma autora:

A educação que meninos e meninas recebem de suas famílias ocorre de forma diferenciada, devido às influências dos meios de comunicação de massa. A televisão, os jornais e revistas, o tempo inteiro estão veiculando e contribuindo para a formação de estereótipos sobre o que é ser mulher/menina e homem/menino, criando essa imensa dicotomia entre os sexos. Homem não pode agir como mulher, tem que se diferenciar em comportamentos e emoções, caso o contrário, a sociedade coloca sua masculinidade em dúvida, pois ele precisa demonstrar mais força, virilidade e poder do que a mulher (AZEVEDO, 1985, apud, MONTEIRO, 2012, p. 9).

De acordo com Monteiro (2012), os papeis de gênero são designados em função da sociedade, no entanto, o que os determina não são as características biológicas, mas sim os seus aspectos psicológicos e sua dinâmica relacional dentro de um contexto biopsicossocial. A feminilidade e a masculinidade devem ser compreendidas de forma mais abrangente, não apenas em padrões sociais. (HEILBORN, 1996, apud, OLIVEIRA; SOUZA; MARODIN, 2000; SAFFIOTI, 2004)

Segundo Lima, Buchelle e Climaco (2008), o que apenas muito recentemente começou a ser discutido é que, ao se falar sobre gênero, podemos e devemos utilizar a frase de Beauvoir para também nos referirmos aos homens: “Não se nasce homem, torna-se homem!”.

Em se tratando de gênero, conforme Scott (1995, apud, LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008, p. 73), representa: “[...] uma forma de identificar ‘construções culturais’ – a criação inteiramente social de idéias sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres. Trata-se de uma forma de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres.”.

Nos trabalhos empregados com a população masculina discutem-se os papeis de gênero para os homens e os papeis tracionais, provenientes de comportamentos e atitudes que são estruturados de acordo com a raça, etnia e elementos sociais e econômicos, denotando o grande impacto na vida das mulheres e crianças. (LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008)

Para Lima, Buchelle e Climaco:

Um dos destaques deste campo é o conceito de “modelo hegemônico de masculinidade”, definido por Connell (1995) como uma configuração de gênero que incorpora a resposta atualmente aceita para o problema da legitimação do patriarcado, garantindo a posição dominante dos homens e a subordinação das mulheres. (2008, p. 73)

Ou seja, ainda de acordo com os autores, é um modelo de masculinidade dominante, provedora, viril com as mulheres, preferencialmente branca.

Segundo Lima, Buchelle e Climaco (2008), o caráter relacional entre homens e mulheres é o foco dos crescentes debates e estudos não para a inclusão dos homens na área da saúde, mesmo que nunca tivessem sido excluídos, mas sim enfatizando pela ótica de gênero. Sendo assim, as políticas de gênero devem sair do viés de apenas compreender e representar a mulher, para também abranger o envolvimento dos homens de forma a galgar a equidade entre os gêneros.

Silva et al (2015) aborda as questões de gênero como construções que podem ser dinâmicas e ressignificadas nas relações, não se tratando apenas de padrões pré-estipulados. Sendo assim, os papéis masculino e feminino se desenvolvem e se transformam ao longo da cultura e história do sujeito, discutindo-se a igualdade, mas sem deixar de lado a subjetividade de cada um.

A forma como o sujeito significa o mundo, a si mesmo e aos outros se dá durante a interação. Esses significados concedem a troca de complexas experiencias e comunicação nos contextos psicossociais diversos. Sendo assim, há uma construção que transforma o cultural em natural, bem como torna coerente a cultura como um dos mais importantes aspectos que concebem o desenvolvimento humano em se tratando dos papeis masculinos e femininos. (SILVA et al, 2015)

Discutindo a representação de gênero, trata-se de uma construção cultural das identidades subjetivas de homens e mulheres e sobre o que se considera “adequado” quanto aos papeis sociais. (LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008)

Abordar homens e gênero abre possibilidades para se perceber os homens não como modelo hegemônico tradicional patriarcal, mas sim em suas pluralidades e diversidades. Há o constructo da subjetividade e do contexto biopsicossocial, sendo construídas e reconstruídas ao longo de suas vidas. (LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008).

Os homens também perpassam por sofrimento psíquico, não somente as mulheres, e à masculinidade é dada pouca importância quando se trata dos aspectos sociais e de identidade de gênero que podem levar o sujeito ao adoecimento. Levando-se em consideração essa temática, a reflexão feita por Schraiber et al (2005, apud, LIMA; BUCHELLE; CLIMACO, 2008) questiona o seguinte: “Vale a pena trazer a temática de homens e masculinidades para a pauta dos estudos de saúde e gênero?”. Faz-se importante frisar que devido ao atual cenário, é preciso ter um novo olhar para que os homens não mais sejam vistos como parte dos problemas, mas sim como parte das soluções.

2.2 O PERFIL DOS AUTORES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Para Silva, Coelho e Moretti-Pires (2014), não há muitos estudos quando se trata da história da violência na família, mas observou-se um dado importante relacionando a atitude violenta da agressão cometida pelo homem com histórico de violência física ou psicológica sofrida na infância ou testemunhada contra a mãe. Sendo assim, ter testemunhado a violência entre os pais na infância aumenta em quatro vezes a chance de agressão doméstica com a parceira, supostamente devido a naturalização desse comportamento.

Schneider 2014 (apud PADOVANI; WILLIANS, 2011 apud PIETROVSKI; EMMENDOERFER, 2016) revelam através de estudos que existem características entre os agressores de violência doméstica, que são comuns entre eles, como:

Crenças estereotipadas de papéis de gênero; negação e/ou minimização do ato de violência direcionada à parceira (distorção dos eventos agressivos em benefício próprio); externalização da culpa (especialmente atribuída à mulher); banalização e minimização dos próprios atos, baixo controle de impulso (baixa tolerância a discussões de ordem íntima); ter presenciado ou vivenciado abusos na infância, bem como ter sido vítima de negligência afetiva e de cuidados essenciais. Como fatores de risco: o abuso de substâncias entorpecentes, dependência extrema da parceira e ciúme excessivo (PIETROVSKI; EMMENDOERFER, 2016, p. 9).

De acordo com Dalal et al (2009 apud SILVA; COELHO; MORETTI-PIRES, 2014, p. 281) a violência doméstica, contra a companheira, pode estar associada à baixa escolaridade do parceiro como: ensino fundamental incompleto. Ainda segundo os autores, “Todavia, é provável que a idade, isoladamente, não seja um fator desencadeador de violência contra a parceira íntima, e sim a diferença de idade entre os parceiros."

Segundo Silva, Coelho e Moretti-Pires (2014), a baixa escolaridade reflete nos relacionamentos uma grande probabilidade na perpetração da violência física ou sexual, além de interferir na qualificação profissional podendo ser um estressor diante das condições para se manter financeiramente com relação a desemprego ou salários inapropriados.

Ainda segundo os autores, há uma relação entre a violência e a situação de trabalho, pois explica um possível “sentimento de impotência do homem ao não conseguir manter uma boa posição social ou não ter um emprego adequado.”. (SILVA; COELHO; MORETTI-PIRES, 2014, p. 281). Como uma outra vertente, tem-se a desestruturação familiar e financeira provenientes desse sentimento e da baixa escolaridade dos homens. A violência doméstica predomina nas famílias em que as implicações da baixa renda favorecem os comportamentos agressivos.

Sendo assim, se o homem se encontra desempregado, aposentado ou se possui algum trabalho informal pode ser associado ao fato de que há um risco de violência duas vezes maior se o homem tiver um trabalho formal. No entanto, mesmo diante dessa informação, “o homem com emprego regular ou ocasional pode se associar também à conduta violenta.”. (p. 281).

Dentro do âmbito familiar encontram-se alguns fatores que favorecem a violência doméstica, como por exemplo, o consumo de álcool pelo homem que comete a agressão, pois reduz as inibições e dificulta a compreensão, facilitando a incorrência de recursos mais primitivos para a resolução dos conflitos. Referente ao uso de tabaco observou-se que os homens fumantes são mais propensos no acometimento da violência física e verbal do que os homens não fumantes. (SILVA; COELHO; MORETTI-PIRES, 2014, p. 281).

Algumas tentativas de explicar o comportamento agressivo do homem estão relacionadas ao uso do álcool e/ou drogas. Entretanto, percebeu-se que o uso dessas substâncias não pode ser considerado a causa do comportamento agressivo. Pois, assim como existem homens que cometem a violência quando estão sob o efeito das drogas e/ou álcool, existem outros que cometem a violência sem a presença desses fatores. A presença do álcool e/ou droga não é a causa da violência, mas também não deve ser ignorado, pois é um fator de risco. Pois, essas substâncias potencializam a violência contida no homem agressor. (AGUIAR, 2009, apud, SILVA et al, 2015).

Se faz necessário investigar e delinear o perfil de cada homem autor de violência doméstica, incluindo a sua história de vida, pois o mesmo pode ter sido vítima de violência doméstica, na infância e ou adolescência, assim como vítima da negligencia do estado na defesa de seus direitos fundamentais e sociais, possibilitando que se torne um adulto a ser destruído pelo sistema penal, caso descoberto como autor de violência doméstica. (PIETROVSKI; EMMENDOERFER, 2016).

3. PROGRAMAS SOCIOS-EDUCATIVOS COM OS AUTORES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Para Tonelli, 2007 existem vários programas que atuam com homens autores de violência doméstica que utilizam vários modelos teóricos, onde é possível perceber as aplicações das técnicas ecológicas, cognitivo-comportamental, psicanalítica, gênero e masculinidades, feminista, terapia familiar sistêmica, entre outras. No entanto as escolhas dessas abordagens teóricas estão diretamente conectadas à programas que compreendem as causas da violência contra a mulher. Para Laing, (2002 apud SILVA; COELHO; MORRETI-PIRES, 2014) as que mais se destacam são as abordagens sócio-políticas e a individual ou psicológica.

Moraes e Ribeiro, relatam que:

Feitosa Andrade e Barbosa (2008) representantes do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, registraram o surgimento de iniciativas pontuais com homens autores de agressão contra as mulheres antes mesmo da aprovação da Lei Maria da Penha. Ainda que localizem perspectivas e abordagens teórico-metodológicas diversas, os autores identificam motivações e valores gerais que orientam esses grupos. (2012, p. 38).

Ainda para Feitosa, Andrade e Barbosa (2008 apud Moraes; Ribeiro, 2012) [...] os homens são tratados como responsáveis pela violência contra a mulher, no entanto os trabalhos são de reflexão sobre gênero, por meio da metodologia de grupos, onde se cria oportunidades para a ampliação das mudanças dos seus papeis na sociedade, possibilitando aos homens ressignificarem as suas identidades de gênero.

As iniciativas de atendimento aos homens autores de violência doméstica têm como intuito introduzir novas ideias e formas de compreensão sobre os papéis do homem e da mulher na sociedade, promovendo o reconhecimento e a responsabilidade do homem pela violência perpetrada, ressignificando assim as suas próprias relações de gênero. Através da possibilidade de uma reeducação que atinja as subjetividades e suas às identidades, em última instância, é atingir a auto definição identitária do homem agressor. (MORAES; RIBEIRO, 2012).

Nos artigos analisados, verifica-se que as equipes técnicas que trabalham com os homens autores de violência doméstica, entendem que é necessário atingir três objetivos nos Grupos Reflexivos “a) responsabilizar o autor desenvolvendo nele uma consciência do ato praticado; b) promover mudança de atitude; c) divulgar informações que permitam aos autores também se verem como sujeitos de direitos, indicando a possibilidade de tratar os conflitos por meio da Justiça.” (MORAES; RIBEIRO, 2012, p. 48).

Para Lima e Buchelle (2011) por mais que os trabalhos de prevenção, atenção e enfrentamento da violência de gênero, doméstica e familiar estejam consolidados em vários países como uma alternativa adicional, ainda existe duvidas importantes que caem sobre o atendimento a homens autores de violência doméstica.

4. O PAPEL DO PSICÓLOGO NO ATENDIMENTO A AUTORES DE VIOLENCIA DOMÉSTICA

Para Laing (2002 apud Rothman et al., 2003 apud Lima; Buchelle, 2011) as abordagens psicológicas, de grupo ou individuais entendem que os autores ou as vítimas terem sofrido ou presenciado violência durante seu desenvolvimento, representam as principais causas da violência sofrida ou cometida. Assim sendo a intervenção tem o foco sobre a compreensão das características que levam uma pessoa a se tornar um autor de violência ou uma vítima.

A intersubjetividade do sujeito é construída a partir do momento em que ele se apropria da sua identidade sexual, de sua mente e do seu corpo. Para que o desenvolvimento da imagem corporal, do senso de identidade e do pensamento simbólico se torne produtivo, o papel que os pais desempenham na mediação com a criança é fundamental.

As constantes ameaças de desintegração do ego ocorrem em um ambiente que não se ajusta de forma adequada à sensação de pertencer a uma dinâmica familiar e não propicia discriminar fatos de fantasias, contribuindo para o desenvolvimento de indivíduos que sofrem.

Um sistema de defesa altamente organizado e vigorosamente mantido, onde predominam a repressão, a negação e a recusa é criado, com o objetivo de proteger o ego da ansiedade excessiva produzida pelo contato com uma experiência que não pode ser assimilada, onde o indivíduo distorce seu contato com a realidade, obstruindo o acesso à consciência e eliminando os conteúdos mentais afetivos e ideativos. (Winnicott, 1985 e Bion, 1962).

Os homens que procuram tratamento psicológico de maneira voluntária são minorias dentro da população. Os papeis de gênero é um dos fatores que fazem com que os homens apresentem dificuldade de buscarem um tratamento psicológico, quando comparado com as mulheres. Os homens aprendem que devem ser seguros, autoconfiantes, que devem manter o controle de toda situação, que precisar de ajuda e demonstrar fraqueza é papel da mulher. E percebe no tratamento psicológico uma forma de assumir suas fraquezas, ao buscar ajuda. Mediante esta construção cultural, os homens autores de violência doméstica são direcionados pela Justiça, normalmente pelo judiciário, delegacias, abrigos e conselhos de maneira “voluntária”, para salvar o relacionamento, pressionados pela mulher, aceitam o tratamento. (HIRIGOYEN, 2006; AGUIAR, 2009, OLIVEIRA; GOMES, 2011, apud, MONTEIRO, 2012).

Lamanno-adamo (1999) considera três fatos básicos da vida como essenciais: o reconhecimento da fonte de bondade como sendo proveniente do mundo externo (inicialmente o seio e o leite); a relação sexual dos pais como sendo um ato de extrema criatividade; e a passagem do tempo e da certeza da morte. Não reconhecer os fatos básicos da vida torna o pensamento de todo adulto e atos posteriores obstruídos e quando negados e distorcidos, são associados a distúrbios de afetividade e de personalidade (apud Money-Kyrle,1971)

Utilizando-se de artifícios para tentar mostrar a sua inocência, distorcendo os fatos e tentando manipular o profissional, os homens não percebem a violência quando praticada e não se sentem responsáveis pelo ato cometido, esta percepção distorcida dificulta a busca voluntária por tratamento. Normalmente se colocam como vítima na situação e responsabilizam a mulher pela violência cometida e pelos problemas da relação. (HIRIGOYEN, 2006, apud, MONTEIRO, 2012).

Para Aguiar (2009 apud Oliveira; Gomes, 2011 apud Monteiro, 2012) a intervenção com os autores de violência tem como objetivo principal fazer com que o homem assuma e se responsabilize pela violência cometida, proporcionado assim, mudanças na maneira de se relacionar com as mulheres, homens, idosos e crianças.

Para realizar as intervenções com os homens autores de violência é necessário compreender quais motivações os levam a cometer a violência contra a mulher. “Inicialmente o homem agressor era visto como portador de alguma psicopatologia”. O avanço nos estudos de gênero possibilitou a compreensão de que distúrbios psiquiátricos não eram o motivo da violência cometida contra a mulher. No entanto, um ambiente familiar marcado pela violência pode vir a provocar sérios distúrbios ou psicopatologias no indivíduo. (AGUIAR, 2009, apud, MONTEIRO, 2012).

Segundo Oliveira; Gomes (2011 apud Monteiro, 2012) o objetivo do trabalho de grupos reflexivos e/ou sócio educativos com os homens autores de violência é fazer com que reflitam sobre seu comportamento agressivo e sobre as consequências negativas existentes na cultura aprendida nos papeis de gênero, ou seja, no quanto perdem ao não entrarem em contato com seus sentimentos de tristeza, saudade, amor e reprimir seus desejos e vontades, para se enquadrarem dentro da cultura machista imposta pela sociedade na qual estão inseridos. Aguiar (2009) relata que as reflexões sobre o comportamento dentro do estereótipo de masculinidade podem favorecer a mudança em sua forma de se relacionar com as mulheres.

O profissional que atua com homens autores de violência não deve emitir juízo de valor, trabalhar com um viés sócio educativo e reflexivo, não com um viés punitivo, evitando naturalizar a violência e a agressão, tudo isto facilita o vínculo terapêutico e como consequência o trabalho do psicólogo. (AGUIAR, 2009; OLIVEIRA; GOMES, 2011 apud MONTEIRO, 2012).

A mulher, após ter denunciado o homem de violência conjugal, decide reatar o relacionamento e muitas vezes desiste do processo, nestes casos, a intervenção com o autor da violência é necessária, assim como também com a mulher e com o casal, para que tenham consciência do fenômeno da violência na qual estão vivendo e com isto refletir e compreender a sua relação conjugal. O trabalho tem cunho totalmente preventivo, na tentativa de evitar novas violências e interromper o ciclo de violência que pode se instalar. Nestes casos não adianta somente a vítima ser atendida e buscar tratamento, é de suma importância que o autor da violência seja atendido e passe por um programa sócio educativo, para compreender e entender a violência implicada na relação e criar possibilidades de mudanças. Caso isto não aconteça os riscos da violência aumentar é muito maior, criando o ciclo de violência. (HIRIGOYEN, 2006; AGUIAR, 2009, OLIVEIRA; GOMES, 2011, apud, MONTEIRO, 2012).

Segundo Corsi (2006 apud Monteiro, 2012, p. 30), as intervenções realizadas em grupo com a metodologia voltada para a violência a partir do conceito de gênero geravam resultados mais positivos do que as intervenções individuais, sem levar em consideração a violência como sendo um problema social, que está relacionado com o conceito de gênero e seus papeis dentro da sociedade (apud, AGUIAR, 2009). Quando se utiliza o conceito de gênero para intervir com os autores, trabalha-se a questão do poder que o homem exerce sobre a mulher, os papeis e estereótipos de gênero estabelecidos pela nossa cultura e sociedade e suas influências na relação entre homem e mulher, bem como a responsabilização da violência.

No trabalho com autores de violência doméstica, as intervenções grupais são as que geram mais efeitos positivos já nos trabalhos individuais o homem tende a se esquivar dos assuntos relacionados à violência. Estes grupos reflexivos abrem espaços para a discussão de temas que no cotidiano do homem agressor, não são pensados nem discutidos “No trabalho em grupo, o homem agressor se identifica com os outros membros do grupo, percebendo que ele não é o único a ter conflitos e pensamentos, pois percebe que eles compartilham das mesmas formas de pensar, agir e sentir”, enxergando no outro algo que não percebia em seu comportamento, permitindo que suas defesas e resistências diminuam e com isto venha falar sobre seus conflitos. “Quando percebe no outro um pensamento machista, ele passa a refletir sobre seus próprios valores e pontos de vista, bem como sobre suas formas de agir”. (AGUIAR, 2009; ANDRADE; BARBOSA, 2008; MARQUES, 2007, apud, MONTEIRO, 2012, p. 29).

O objetivo dos grupos reflexivos não é tratar os autores de violência psicologicamente, pois eles não são portadores de nenhuma psicopatologia, esta postura facilitaria com que eles justificassem suas ações através do diagnóstico. O objetivo dos grupos reflexivos é fazer com que os agressores reflitam sobre seus próprios comportamentos e a partir daí consigam construir novas formas de se relacionar com as mulheres, mediante suas mudanças comportamentais e subjetivas. (MONTEIRO, 2012).

Para Aguiar (2009) O trabalho em grupo possui um caráter sócio educativo, onde normalmente, é abordado um tema, fazendo com que os membros do grupo reflitam sobre seu papel na criação e manutenção do ciclo da violência.

Para o mesmo autor os temas trabalhados no grupo estão relacionados com o controle da raiva e agressividade, com a necessidade de treinamento para expressarem suas emoções, questionamentos sobre os estereótipos de gênero e suas influências, uso de álcool e drogas, a responsabilização dos homens pela violência cometida, construção alternativas para resolver algum conflito na relação, sem usar a violência. (MONTEIRO, 2012, p. 29,).

Para Corsi (1996), apud, Aguiar (2009) os resultados esperados das intervenções em grupo, é que o homem obtenha controle da sua agressividade; não repetir nenhum tipo de violência contra a mulher, entender os papéis de gênero e sair da rigidez que aprendeu a respeito dos estereótipos de gênero, rever as crenças culturais que reforçavam sua conduta violenta, poder expressar suas emoções quando sentir necessidade; ter sua autoestima aumentada para que com isto possa manter uma relação de igualdade e equidade com a mulher. (apud, MONTEIRO, 2012).

No acompanhamento psicossocial com o homem autor de violência conjugal, tem vários objetivos, como fazer com que o homem entenda os motivos que o leva a agredir suas parceiras e responsabilizá-lo da violência cometida, permitir que tenham contato com a sua própria vulnerabilidade, ou seja, com os sentimentos que ele possa possuir de carência afetiva, insegurança, desconfiança, insatisfação, etc., pois estes são sentimentos vividos na relação, ampliar sua consciência sobre a introjeção dos valores sócio culturais “machistas” que favorecem e naturalizam a dominação do homem sobre a mulher e como consequência a violência conjugal. (TENÓRIO, 2012, apud, MONTEIRO, 2012).

Segundo Aguiar (2009 apud Silva et al, 2015) para realizar intervenções nesse contexto é necessário compreender a motivação do homem para cometer a violência contra a mulher. Inicialmente o homem agressor era visto como portador de alguma psicopatologia. Com os avanços dos estudos na área de gênero foi possível compreender que a presença de distúrbios psiquiátricos não é a causa da violência cometida contra a mulher. No entanto, pessoas que convivem em um ambiente marcado pela violência intrafamiliar podem vir a adquirir sérios distúrbios ou psicopatologias.

Para Hirigoyen (2006 apud Aguiar, 2009 apud Oliveira; Gomes, 2011 apud Silva et al, 2015), as intervenções com os autores são também necessárias porque, em muitos casos de violência conjugal, a mulher, após ter denunciado o homem, desiste do processo e decide reatar o relacionamento. Nestes casos, a intervenção será feita com o casal, tanto com o homem, como com a mulher, para que ambos tenham consciência da dinâmica relacional, na qual eles estão inseridos, e, assim possam refletir e compreender os fenômenos relacionados à violência. Seria um trabalho preventivo, com o intuito de evitar com que novos episódios de violência ocorram no relacionamento. Quando o casal decide reatar o relacionamento, não adianta só a vítima realizar tratamento, pois assim, o risco da violência aumentar é ainda maior. É importante que o autor também esteja em tratamento para compreender os processos implicados na relação violenta e assim ter possibilidades de mudança.

Segundo Corsi (2006 apud AGUIAR, 2009 apud Silva et al, 2015), as intervenções realizadas em grupo nas instituições e com a metodologia voltada para a violência a partir do conceito de gênero geravam resultados mais positivos do que as intervenções individuais, em consultório privado, sem levar em consideração a violência como sendo um problema social, que está relacionado com o conceito de gênero e seus papeis dentro da sociedade. Quando se utiliza o conceito de gênero para intervir com os autores, trabalha-se a questão do poder que o homem exerce sobre a mulher, os papeis e estereótipos de gênero estabelecidos pela nossa cultura e sociedade e suas influências na relação entre homem e mulher, bem como a responsabilização da violência.

As intervenções grupais são, portanto, as que geram efeitos mais positivos no trabalho com autores de violência doméstica, já que, no consultório privado, o homem tende a se esquivar dos assuntos relacionados à violência. No trabalho em grupo, o homem agressor se identifica com os outros membros do grupo, pois percebe que eles compartilham de formas semelhantes de pensar, agir e sentir. Ele pode enxergar no outro algo que não percebia em seu comportamento. No contexto grupal, a defesa e resistência do homem em falar sobre seus conflitos é menor, pois ele percebe que não é o único a possuir esses conflitos e pensamentos. Quando percebe no outro um pensamento machista, ele passa a refletir sobre seus próprios valores e pontos de vista, bem como sobre suas formas de agir. Estes grupos reflexivos abrem espaços para a discussão de temas que em seu cotidiano, não são pensados nem discutidos. (AGUIAR, 2009; ANDRADE; BARBOSA, 2008; MARQUES, 2007, apud, SILVA et al, 2015).

Estes grupos não possuem o objetivo de tratar os autores psicologicamente, já que estes não são considerados como portadores de alguma psicopatologia, pois isso fazia com que eles utilizassem o diagnóstico para justificar suas ações. O objetivo, portanto, é fazer com que eles reflitam sobre seus próprios comportamentos e a partir dessa reflexão, possam realizar mudanças comportamentais e subjetivas, possam construir novas formas de se relacionar com as mulheres. (SILVA et al, 2015).

No trabalho em grupo, normalmente, é estabelecido um tema a ser trabalhado na sessão. Estes temas possuem um caráter socioeducativo e fazem com que os membros do grupo reflitam sobre seu papel na criação e manutenção do ciclo da violência. Os temas mais comuns trabalhados no grupo estão relacionados com o controle da raiva e agressividade, com a necessidade de treinamento para expressarem suas emoções, questionamentos sobre os estereótipos de gênero e suas influências, uso de álcool e drogas, a responsabilização dos homens pela violência cometida, construção alternativas para resolver algum conflito na relação, sem usar a violência. (AGUIAR, 2009, apud, SILVA et al, 2015).

O resultado esperado das intervenções em grupo, é que, ao final, o homem possa conseguir obter controle da sua agressividade; não cometer atos violentos contra a mulher, sair da rigidez que mantinha a respeito dos papeis e estereótipos de gênero, para assim, manter uma relação de igualdade com a mulher; conseguir expressar suas emoções quando sentir necessidade; ter sua autoestima aumentada e rever as crenças culturais que reforçavam sua conduta violenta. (CORSI, 1996, apud, AGUIAR, 2009 apud SILVA et al, 2015).

No acompanhamento psicossocial com o homem autor de violência conjugal, um dos objetivos é trazer a responsabilização da violência cometida ao autor para que possam ser trabalhados com ele os motivos que o leva a agredir suas parceiras. É importante também facilitar o contato com a própria vulnerabilidade do homem, ou seja, com os sentimentos que ele possa possuir de carência afetiva, insegurança, desconfiança, insatisfação, etc., pois estes são sentimentos vividos na relação. Outro ponto a ser trabalhado é ampliar a consciência do homem sobre a introjeção dos valores “machistas” advindos do patriarcado que favorecem e naturalizam a dominação do homem sobre a mulher e como consequência a violência conjugal. (TENÓRIO, 2012 apud SILVA et al, 2015).

A psicanálise tem mostrado que sentimentos de inveja, ciúme e exclusão intensos, transforma (através de projeção) a capacidade de tolerar na mente todo o amor e o ódio em incapacidade liberando distorções aberrantes dos fatos da vida.

Quando a dor gerada pela culpa, remorso e arrependimento, beira o insuportável, podemos atacar nossa capacidade de sentir e perceber (tornamo-nos insensíveis, nos cegamos, tapamos nossos ouvidos); num movimento ainda mais drástico, transformamos a verdade em onipotência, arrogância e hipocrisia.

Para Lamanno-adamo (1999) O maior prejuízo para indivíduos inseridos em ambientes violentos é o obscurecimento do que é fantasia e do que é realidade. O próximo estágio é a destruição do aparato mental responsável pela transformação das impressões sensoriais e das experiências emocionais em material adequado para imaginação, sonhos e pensamentos. O estatuto irreal e inconsciente das fantasias, passa para o plano do "verdadeiro", na presença de um clima de constante violência (expressão de amor e ódio). Já não são mais fantasias inconscientes expressando-se e tentando ser processadas através de sonhos, mas são fatos. Não se trata mais de temores herdados filogeneticamente, não se trata mais de ficção ou sonho, mas de uma destrutividade real. Quando isso ocorre, o indivíduo terá que lançar mão de estratégias mais radicais para a sobrevivência. Eliminar o conteúdo da consciência não é suficiente para se proteger da ansiedade excessiva. (Apud Bion, 1992b, Segal, 1998)

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para Pellegrini (2009) existem poucos artigos voltados aos homens autores de violência doméstica, e estudar as ações prestadas a esta comunidade pode contribuir para melhorar o atendimento e assim criar uma possibilidade de reduzir o ciclo de violência doméstica. Da mesma forma, será necessário entender a construção de gêneros masculinos e femininos na sociedade e como os autores de violência doméstica a compreendem.

O homem que comete o ato violento contra a mulher deve entender e repensar as atitudes de como lida com ela, reconhecendo seus direitos e autonomia para iniciar uma transformação nos relacionamentos. Importante enfatizar que a mudança deve partir de ambos os lados, não apenas da mulher, e isso implica na atenção aos programas direcionados aos homens agressores focando em suas subjetividades e singularidades. Há de se atentar ao processo psicossocial que possibilita repensar a ideia de gênero e masculinidade que a sociedade construiu ao longo da história do homem e na imposição de um papel, sobretudo, fundamentar a reflexão do homem agressor para que seja reconstruída a sua identidade e as relações que são destituídas de violência.

O psicólogo tem um importante papel nessa reconstrução e ressignificação do homem agressor em sua atuação em programas sócio educativos em um conceito preventivo e interventivo, na inclusão de questões que permeiam o gênero e os fenômenos sociais, promovendo mudanças propícias ao sujeito que está em constante formação. A grande dificuldade está na adesão dos homens aos programas, bem como aqueles que participam estarem apenas por uma questão jurídica devido ao ato cometido e para de certa forma, “abrandar” o que foi feito.

Segundo Lamanno-adamo (1999) a percepção da realidade psíquica torna-se integradora quando se estabelece o que eles denominam de um “modo reflexivo de experiência psíquica”. Neste modo reflexivo os estados mentais podem ser representados, pois "as realidades interna e externa podem então serem vistas como vinculadas e, ainda assim, serem aceitas como distintas em aspectos importantes, não tendo mais que serem igualadas ou cindidas uma da outra". (apud Fonagy e Target 1996b,1996a)

O modo reflexivo de funcionamento mental, na medida em que permite distinção e integração entre espaço interno e espaço externo é um componente importante do processo de individuação. Amplia a comunicação, pois torna possível a representação clara do estado mental do outro. Ajuda o indivíduo a atingir um nível mais elevado de intersubjetividade, e desse modo, experiências mais profundas com os outros e uma vida sentida como mais significativa. Além disso, na medida em que o modo reflexivo propicia o reconhecimento de que uma representação é só uma representação, que uma idéia é só uma idéia, e que um sentimento é só um sentimento, apresenta-se como o alicerce para o pensamento simbólico.

Faz-se necessário investir na criação e na promoção dos centros sócio educativos para homens autores de violência doméstica promovendo a igualdade de gênero, sobretudo responsabilizando esse homem referente ao ato cometido buscando uma reflexão aprofundada das questões comportamentais violentas e agressivas para que sejam repensadas e ressignificadas as atitudes machistas e sexistas na resolução dos problemas que permeiam os relacionamentos.

A psicanálise vem enfatizando que o desenvolvimento de um psiquismo capaz de distinção e integração de mundo interno e externo constitui-se através de um processo intersubjetivo. Esse processo ocorre através do mecanismo denominado de identificação-projetiva, ou seja, o processo através do qual estados emocionais provenientes da fantasia inconsciente de uma pessoa passam para outra (Klein,1946).

Para a mesma autora deste conceito revolucionário dentro da psicanálise, liga este fenômeno à patologia (uma defesa contra conteúdos mentais intoleráveis), porém Bion (1962) e Lamanno-adamo (1999) (apud Caper, 1996) ampliaram este conceito para a esfera da normalidade.

Lamanno-adamo (1999) amplia essas idéias propondo que evocamos estados mentais na mente do outro para descobrirmos a mente do objeto externo e a própria mente; uma forma de aprender dispondo das fantasias inconscientes de forma experimental; uma forma de testar o objeto externo para ver como ele é e como reage a determinadas verdades e sentimentos. Quando a realidade externa se torna uma réplica da realidade interna, a identificação-projetiva deixa de ser, instrumento de experimentação e passa a ser utilizada como uma defesa, uma forma de se livrar de conteúdos mentais vividos como intoleráveis, pois não se pode mais vivenciar as projeções como experimentações de consequências limitadas, mas como alterações plenas e catastróficas da realidade externa. Ao externalizarmos nosso mundo interno podemos também percebê-lo e reconhecê-lo. (apud Caper ,1996)

Porém quando a dinâmica familiar se torna uma réplica das fantasias inconscientes, o plano dos significados fica impedido de se desenvolver e o nível do simbólico não pode ser alcançado. A experiência emocional não pode ser pensada e evoluir sem os significados que podem alcançar sua representação em símbolos.

Nessa perspectiva podemos pensar que a violência doméstica aponta não só para uma dinâmica viciosa de privação e traumas, mas, essencialmente, para uma falta de experiências emocionais que possam ser significadas e alcançar representações em símbolos. A violência doméstica aponta para uma profunda incapacidade de seus membros para viverem as emoções e pensá-las de forma a propiciar uma integração permanente de novas experiências que ampliam a possibilidade de conhecimento.

O presente artigo buscou apontar uma reflexão acerca da atuação do psicólogo no trabalho junto aos homens autores de violência doméstica na prevenção e atenção da violência contra as mulheres, dando abertura para que estudos posteriores possam elucidar melhor sobre o tema.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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