Modelagem Mental - Psicologia do esporte para o atleta de alto rendimento.

Atualizado: 22 de jun. de 2020

Modelagem Mental

Psicologia do esporte para o atleta de alto rendimento.


O psicólogo do esporte de alto rendimento deverá conhecer e analisar as diferentes situações esportivas que se produzem ao longo de um jogo, de uma competição, de uma temporada ou de um ciclo olímpico, e com base nisso realizar um plano de treinamento utilizando os recursos psicológicos dos atletas e da equipe técnica com que ele vai colaborar, para adequar as necessidades e otimizar o rendimentos dos atletas (CRUZ, 2002).

Existem determinados fatores que parecem ser característicos e comuns nos atletas mais vitoriosos, como (WILLIANS, 1991):

- alto nível de autoconfiança;

- uma maior concentração;

- utilização de pensamentos positivos;

- níveis inferiores de ansiedade estado (pré competitiva);

- maior capacidade de superar os erros.

Inúmeros estudos foram realizados tentando correlacionar características de personalidade e desempenho esportivo. A palavra personalidade do do latim “persona”, e representa o conjunto dos aspectos internos e externos, que são peculiares a cada pessoa, relativamente permanentes e que influencia o comportamento do indivíduo.

O tipo de personalidade interfere em tudo que fazemos, desde nossos hábitos de sono, alimentação, comportamentos sociais e nos comportamentos da prática esportiva; identifica-la no esporte, é um atalho para prever comportamentos dos atletas e técnicos em treinos e competições, assim como, também para o autoconhecimento.

No entanto pesquisas que tentaram determinar padrões de grupos ou perfil de atletas campeões não foram bem-sucedidas; os estudos apontam que atletas de alto rendimento com desempenhos esportivos semelhantes muitas vezes tem características de personalidade diferentes.

Atualmente alguns fatores sobre comportamentos vitoriosos, são apontados como diferenciais nas vitorias, como:

- o estado ótimo de ativação mental;

- a tomada de decisão mais rápida e eficaz;

- o estado mental flow (Mihaly Csikszentmihalyi).

Desta forma psicólogos do esporte buscam em seus trabalhos desenvolver, ou modelar, a capacidade de seus atletas (clientes) para alcançar este estado mental (flow), cujo a sensação é relacionada a hipnose ou meditação; o que se sabe é que neste estado mental (flow) o foco, a percepção e a ação parecem alinhadas para que o atleta apresente o comportamento mais eficaz que o seu adversário.

ATIVAÇÃO MENTAL

É muito importante um estado ideal de ativação para o rendimento esportivo e uma regulação da ativação fisiológica e psicológica no contexto esportivo. O importante é considerar que cada esportista necessita de um nível de ativação ideal para uma atuação eficaz, o qual pode se manifestar em termos fisiológicos (grau de tensão muscular gerado, mobilização da energia e coordenação motora) ou cognitivos (atenção, processamento da informação relevante e tomada de decisões) (LANDERS; BOUTCHER, 1991).

No contexto esportivo a ativação é um indicador do grau de prontidão do atleta para o desempenho, variando desde a falta absoluta de estímulo (ausência total de excitação) até a excitação extrema (WEINBERG; GOULD, 2002). Assim, o atleta poderá encontrar-se num estado que o desanimará completamente ou que o ativará em excesso, sendo essas duas condições prejudiciais a sua atuação (BECKER JUNIOR; SAMULSKI, 2002).

FLOW

Fluxo, fluir (do inglês: Flow) é um estado mental de operação e que o atleta está imerso no que está fazendo, caracterizado por um sentimento de total envolvimento e sucesso no processo da atividade.

De acordo com Csikszentmihalyi, os componentes de uma experiencia de fluxo podem ser especificamente enumerados. Apesar de todos os componentes abaixo caracterizarem o estado flow, não é necessária a presença de todas estas sensações para experienciar o estado de fluxo (Flow).

1. Objetivos claros (expectativas e regras são discerníveis).

2. Concentração e foco (um alto graus de concentração em um limitado campo de atenção).

3. Perda do sentimento de autoconsciência.

4. Sensação de tempo distorcida.

5. Feedback direto e imediato (acertos e falhas no decurso da atividade são aparentes, podendo ser corrigidos se preciso).

6. Equilíbrio entre nível de habilidade e de desafio (a atividade nunca é demasiadamente simples ou complicada).

7. A atividade é em si recompensadora, não exigindo esforço algum.

8. A sensação de controle pessoal sobre a situação ou a atividade.

9. Quando se encontram em estado de fluxo (flow), as pessoas praticamente “se tornam parte da atividade” que estão praticando e a consciência é focada totalmente na atividade em si.

Proposto pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, o conceito tem sido utilizado em uma grande variedade de campos.

O conceito designa o estado de consciência em que a mente e o corpo encontram-se em perfeita harmonia. Isso acontece principalmente durante a realização atividades que deixam as pessoas felizes e nas quais pode dar o seu melhor. O simples fato de realizá-las resulta no estado de excelência em que o indivíduo demonstra disposição e concentração.

Quando você faz o que gosta, fica mais motivado e envolvido no desempenho de qualquer atividade relacionada, mesmo que elas sejam obrigações. Isso significa mais produtividade em qualquer setor. O estado de flow permite que o indivíduo esqueça dos acontecimentos do passado ou problemas futuros e fique totalmente focado no “aqui agora” (mindfulness).

Nessa perspectiva, podemos considerar o estado de flow como uma excelente ferramenta de organização da consciência. As pessoas frequentemente estão lidando com o conflito entre razão e emoção, ou seja, pensando uma coisa, sentindo outra e agindo totalmente diferente. Essa briga entre sentimentos, pensamentos e ações consome muita energia, causando estresse e desgaste emocional. Quando alcançam o estado de flow, elas podem usufruir de perfeito equilíbrio entre mente e corpo.

Esse estado de consciência possibilita, portanto, uma diminuição da autoconsciência, e, portanto, eliminação do medo de fracassar, equilíbrio entre as atividades a ser desempenhadas e as habilidades pessoais, integração entre sentimentos, pensamentos e ações, satisfação com aquilo que se realiza, foco e prioridade na concretização de objetivos específicos, entre outros benefícios.

Segundo Csikszentmihalyi, para haver um estado real de flow, os níveis de desafios e competências devem estar em plena harmonia. Levando essa teoria para o plano do atleta de alto rendimento, estar em flow, verdadeiramente, é muito importante para que haja congruência entre aquilo que o atleta faz diariamente e aquilo que gosta. Do contrário, a performance e os resultados serão sempre básicos ou insatisfatórios. Esse argumento reforça aquela premissa “ame o que você faz”. Quando se está satisfeito com o que se realiza, utiliza-se mais facilmente as capacidades e habilidades ao extremo e obtêm-se felicidade em todos os setores da vida.

Estabeleça metas (SMART) desafiadoras, porém realistas, considerando as suas habilidades e capacitações. Com isso, conseguirá o que deseja, e que execute as suas funções da melhor forma possível e dentro dos seus limites. Além disso, outras técnicas também podem ajudar a alcançá-lo. Entre elas, estão: fazer as tarefas como se fossem uma competição, buscar desempenhar uma atividade de cada vez e não se autocriticar em excesso.

O estado de flow proporciona um equilíbrio entre as suas capacidades e os objetivos e desafios estabelecidos. Dentro dessa perspectiva, as metas que você traçar deverão coincidir com a sua realidade, sendo nem menos, nem mais difíceis de serem concretizadas.

Lembrando que você pode exercitar o estado flow em qualquer situação. Isso o ajudará a conseguir estar bem consigo mesmo e desenvolver uma postura mais positiva em relação a sua vida, às pessoas com as quais convive e o mundo a sua volta.

O trabalho de Mihaly tem muita influência de Carl Jung e de Sigmund Freud. No caso de Freud, a ideia do “id” é a representação dos desejos animais e instintivos do corpo, enquanto o “superego” representa o mundo externo que modela nossa própria imagem.

É o ego que representa a consciência que possui autonomia apesar de nossos instintos e dos mecanismos de controle da sociedade.

Mihaly aponta para a autodeterminação como o caminho para que a consciência seja livre e feliz. Uma pessoa que faz aquilo que entende ser o correto vai adquirindo experiência e, com isso, mais habilidades.

Esse é o ponto interessante da pesquisa de Mihaly: a cada momento que superamos nossos desafios, evoluímos e adquirimos maior complexidade, ficando prontos para desafios maiores. É uma espiral virtuosa. Continuando esse processo, estamos na rota de tornarmos indivíduos extraordinários.

Assim, as oportunidades que permitem atingir o flow são viciantes: sem elas, a vida seria chata, sem sentido ou cheia de ansiedade.

Para Mihaly, a felicidade pode ser aumentada ao fazermos aquilo que amamos.

Nas pesquisas de Mihaly entrevistando alpinistas, monges, pastores e uma variedade enorme de pessoas com diferentes níveis de educação e cultura, existem elementos comuns que indicam o que é estar no estado de flow:

Completamente envolvido no que se está fazendo: com foco e concentraçãoUm sentimento de êxtase, de estar fora da realidade do dia a diaUma maior claridade interna, sabendo o que deve ser feito e quão bem estamos fazendo o que deve ser feito. Temos feedback imediatoSaber que a atividade é possível, que nossas habilidades são adequadas para a tarefaUm sentimento de serenidade, sem preocupações e um sentimento de estar crescendo além dos limites do egoUma idéia de estar além da dimensão temporal, totalmente focado no momento presente. As horas parecem passar como se fossem minutosMotivação intrínseca, seja qual for o elemento que produz o flow é a nossa própria recompensa.

O estado de flow depende da relação entre o desafio proposto e as habilidades pessoais para lidar com a atividade demandada.

Essa relação entre o nível do desafio e o nível da habilidade resultou em um gráfico de três dimensões com as seguintes características:

1. Se o desafio estivesse em um nível alto e as habilidades em um nível baixo, o indivíduo experimentava ansiedade

2. Se o desafio estivesse em um nível baixo e as habilidades em um nível alto, o indivíduo experimentava tédio

3. Se houvesse compatibilidade entre desafio e habilidade, o indivíduo experimentava o flow

Com o tempo, os pesquisadores perceberam que não bastava a compatibilidade entre desafio e habilidade para que o flow acontecesse.

Ambos também teriam que estar em um nível alto.

O GRÁFICO DEFINITIVO

Essa evolução levou ao gráfico definitivo do estado de flow, que contém oito dimensões:



Para se alcançar o estado flow a técnica do mindfulness tem sido um grande aliado para o psicólogo.

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